A coruja e o velho da cartola

No meio do nada, bem pertinho de lugar algum, com apenas um lampião em suas mãos, em uma pequena clareira, jaz um velho. Com seu terno puído, sapatos sujos e cartola amassada, grita ao som dos quatro ventos ao universo vazio, esperando ser ouvido:

– Venham a mim! Pinguins desconhecidos, feras exóticas, criaturas do abismo e loucos de todo o gênero, venham a mim! Por que eu vos escutarei e compreenderei como nenhum outro de sua espécie o fez até hoje. Venham e participem do meu show de horror particular. Eu vos exporei nestes pequenos trechos de ideias desconexas e paralelos interessantes o meu pouco entendimento deste estranho universo ou, no mínimo, lhes trarei novas dúvidas para reflexão.

Em meio a escuridão, pequenos ruídos podem ser escutados ao longe. Passos no chão de terra. Asas batendo e outros ruídos indescritíveis gradativamente vão se aproximando, cada vez mais perto. Eis que no meio da escuridão, dois grandes olhos amarelos se formam:

– Velho louco! Fale baixo! – disse uma velha coruja. Estou aqui neste mundo há mais tempo que você e muito embora a floresta onde vivo seja fria, feia e escura, lá é meu lugar e de lá não posso sair.

– Não diga tamanha besteira, coruja tola. A senhora tem o poder de escolha nas mãos e se não sai é por que não é de sua vontade. – disse o velho enquanto se aproximava lentamente da coruja.

– Não posso. – prosseguiu a velha senhora – Vivo lá, no escuro, com minha família desde pequena. Estou de uma certa forma satisfeita com o pouco que tenho. Como ratos que caço a noite e trabalho como vigia da floresta. Tarefa esta que já não faço tão bem, por conta de minha idade avançada, mas ainda assim me permitem executar minhas funções. E assim sigo minha vida. Faço dela o que quero.

– Senhora… – O velho chegou bem perto – A senhora com certeza é muito inteligente e poderia estar desempenhando funções mais importantes ao invés de vigiar a floresta. Deixe isso para os mais jovens. Aproxime-se, por favor. Chegue mais perto da luz por um instante. Eu lhe mostro o caminho, é por aqui. Venha! Escreva livros, execute tarefas intelectuais. Tarefas estas na qual são de sua inteira capacidade, já que sua vista por vezes lhe trai.

– Não posso, lá está bom para mim. Até gostaria, mas não desejo gastar minhas forças com vôos para longe, com novidades. Deixa-me quieta como estou que assim vou vivendo. E pare de fazer todo este barulho.

– Mas, senhora… não tens vontade de conhecer novos lugares? novas cores? novas pessoas? No escuro tudo que podes enxergar são sombras e este mundo em que vives é deveras feio. A única coisa que precisa fazer é bater suas asas e sair das sombras. A senhora é capaz. Venha.

– Você se considera sábio, não é, velho louco? Então deveria saber que sendo uma coruja eu posso enxergar bem no escuro e muito embora na floresta onde moro não existam cachoeiras ou outras belezas naturais, tenho galhos para repousar meu corpo a noite e posso matar o tempo conversando com outras de minha espécie. Não desejo me esforçar para conhecer o maravilhoso mundo dos seres humanos. Aqui tenho tudo que preciso sem precisar fazer força.

O velho pensa, coçando o queixo enquanto tira sua cartola. Ele olha bem nos olhos da coruja e diz:

– Compreendo, senhora coruja. Pensando bem, estás certa. Sou um tolo em pensar que o mundo em que eu vivo é melhor para a senhora. Por favor me perdoe. Continue comendo seus ratos, andando por galhos sujos e gosmentos, com sua querida família de filhos feios e parentes doentes. Se lhe parece melhor, não contemple novos mundos. Feche seus olhos e viva em sua floresta, em sua prisão que a senhora mesma construiu para si. Sou humano e por isso não sei como é ver o mundo com os olhos de uma coruja, que deveria enxergar mais do que eu, mas que na verdade, me parece bem cega.

Dito isso, o velho enfia uma perna por dentro de sua cartola. Depois outra, então projeta seu corpo e por fim acaba por desaparecer por dentro da mesma. Ele apareceu, disse o que havia de ser dito e se foi.

Pobre coruja…. Pobre coruja…