Vinte vezes Maria

SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA
Emitido em: 03/03/2015    23:20

Delegacia do Rio de Janeiro

– Então, Sra… – Ele busca seu nome na tela de um monitor antigo, com nítidos sinais de desgaste pelo tempo e pelo uso.

– Maria – Ela completa.

– Ma-ri-a… – diz o policial lentamente, enquanto digita utilizando apenas os dedos indicadores e confere os dados pessoais de Maria no formulário padrão de ocorrência.

A delegacia está vazia e existem várias mesas com computadores mas ninguém está lá trabalhando. Em uma sala ao lado, uma tv ligada bem baixinho deixa escapar uma luz cintilante. No lado oposto, dorme em um colchonete maltrapilho o que se espera de ser um outro policial, supostamente de plantão.

As cadeiras da delegacia, estranhamente possuem bolas de tênis nas pontas dos pés, fazendo com que elas tenham um aspecto estranho. Como um palhaço, calçando sapatos muito maiores do que seus pés. As bolas são verdes e contrastam com aquele ambiente bege, sujo, mal iluminado e vazio. Nada disso causa estranheza a Maria.

Com ar de cansaço, como quem quase presta um favor, ele pergunta:

– Pois não, Sra. No que eu posso ajudar?

Maria tem um braço engessado, um olho roxo, sangue pisado no canto da boca e bandagens na cabeça. Ela traz em sua mão, uma série de papéis, presos por um clipe.

Ela faz uma pausa e olha para baixo, como quem vai prender a respiração antes de dar um mergulho. E diz, revelando a falta de um dente:

– Então, seu doutor, eu estou aqui para prestar queixa contra o meu marido. – Ela diz enquanto alinha em sua mesa, um a um, lado a lado, os papéis que trouxera consigo.

– E o que ele fez com a senhora? diz o policial em um tom monótono, quase como um deboche.

– O senhor não vê? aponta para o rosto com sua mão “boa”. – Mas já está tudo aqui, seu doutor. Apontando para os papéis.

Enquanto examina os documentos, ele nota que se tratam de radiografias, exames e laudos médicos.

– Tudo bem – diz ele, ajeitando o óculos para leitura enquanto vira sua cadeira de volta para o computador. – Qual o nome dele?

– Thiago.

– De que?

– Thiago bastos Ferreira.

O policial encontra a ficha de Thiago e examina. Thiago já tinha sido fichado em 19 ocorrências, em sua maioria por agressão.

Sem acreditar, o policial relê cada uma das entradas e acaba por virar a tela para Maria para que ela pudesse confirmar, por si mesma, através da foto na tela, se estavam falando da mesma pessoa. – É este aqui?

– É sim senhor, ele mesmo.

– E estas ocorrências de violência são todas contra a senhora?

– Sim, senhor, fui eu mesma que dei queixa dele outras vezes.

– Mas minha senhora, são 19 ocorrências de agressão contra a senhora – diz ele enquanto termina de contar – e a senhora aqui novamente?

– É que dessa vez ele me bateu…

Sem deixar que Maria completasse sua frase, o policial interrompe:

– DEZENOVE vezes, minha senhora?

– Mas doutor, ele toda vez diz que vai melhorar. Mas é que desta vez…

– MELHORAR? A senhora está de sacanagem com a minha cara, não é? – diz nitidamente aborrecido com a situação – A senhora vem aqui as – olha no relógio – onze e pouca da noite, incomodar o meu plantão com essa história?

– Mas…

– Mas o que? Olha aqui na tela, são 19 vezes e a senhora vem aqui para registrar uma vigésima?

– Mas o que eu posso fazer?

– Eu vou te falar o que você vai fazer, senhora – diz, enquanto começa a deletar todos os dados da tela – Olha, eu não sei o que a senhora aprontou, mas a senhora vai pra casa, pede desculpas para o seu marido e vai dormir! – continua a deletar todos os dados – deletando aquela vida, retirando seu endereço, seu número, sua identidade.

– Mas o senhor tem que fazer o registro.

– Pra que, minha senhora? pra perder o meu tempo? Olha, numa boa? A senhora já apanhou 19 vezes e se não fez nada pra mudar isso até agora, não vai ser agora que vai mudar, não é mesmo? Eu não vou fazer o seu registro se quiser vá reclamar com a ouvidoria. Ora, onde já se viu? Tenha vergonha na cara. Quer saber o que eu acho? Eu acho que a senhora GOSTA! – Ele deleta seu último registro. Seu nome: Maria. Sobrenome: Penha.

Maria, tenta conter as lágrimas, e enquanto tenta se recompor, ouve a palavra “gosta” ecoando cada vez mais alto dentro de sua cabeça, num loop cruel.

05/07/1994 – Interior do Maranhão – Duas da manhã

Maria tem apenas 6 anos e seu pai fala com uma voz nitidamente embriagada, como um animal, a violenta sexualmente em sua cama: – para de se sacudir por que eu sei que você GOSTA!

A palavra “gosta” ecoa num ritmo acelerado e cadencial em sua cabeça.

Na cama ao lado, sua mãe finge que está dormindo pois sabe do recente habito de seu marido mas sem ter a capacidade de intervir, justamente por sentir fraca e ter sido alvo também de violência, silenciosamente consente.

O pai de maria, exalando álcool pelos poros deixa sair da garganta um som quase gutural, seguido de uma pequena pausa…

O suor lhe escorre da testa e ele empurra para longe Maria, arfando enquanto ela chora e se recompõe. Ainda de calcas abertas e o pau amostra, ele se vira para a filha mais nova, que chora e se encolhe no canto da parede enquanto balança a cabeça negativamente. E ele diz sorrindo: Agora é a sua vez…

08/04/2006 – Rodoviária

Com 18 anos e um corte no canto da boca, trabalhando 10 horas por dia como caixa do mercado local, Maria finalmente conseguiu juntar dinheiro o suficiente para uma passagem para o Rio, que sob o pretexto de uma viagem a passeio, nunca mais voltou.

Chegou no Rio com uma pequena mochila, 300 reais no bolso e uma conquista. Ela havia conseguido deixar para trás todo aquele horror. Pensava ela: “nada pode ser pior do que aquilo”.

Maria conseguiu sobreviver, através de trabalho duro. Em uma favela, encontrou um lugar para morar e passou muitas noites em prantos, lembrando-se de toda a dor que viveu e percebendo que a “vida normal”, da novela da tv, e que todos tinham. Ela nunca alcançaria.

Um dia, Maria decidiu ir a uma festa e lá conheceu Thiago, por quem ficou perdidamente apaixonada e em pouco tempo estavam morando juntos. Após alguns anos, com o nascimento da pequena Sara, Maria passava a maior parte do seu tempo cuidando da menina, pois seu marido ganhava o suficiente para as necessidades básicas e ela não tinha com quem deixar a criança ou sequer conseguido uma vaga em creche ou escola pública.

A família de Thiago não aprovava a relação pois como seu filho era soldado bombeiro, esperavam mais para ele. Mais do que uma menina abandonada, do interior do brasil.

Um dia, de madrugada. Após chegar em casa bêbado, depois de passar a noite fora em um prostíbulo, Thiago deu um tapa no rosto de Maria.

Aquele tapa no rosto. A rosto avermelhado e o choro da pequena Sara, renderam talvez o segundo pior dia de sua vida.

Após este primeiro evento, outros se sucederam, cada vez com maior intensidade, até que um dia, passados alguns anos, Maria criou coragem e foi até a delegacia fazer sua primeira ocorrência.

Ao terminar a entrevista, o policial a perguntou se poderiam encontrar Thiago em casa naquele horário e se ela estaria disposta a levar a frente sua denúncia. Esta atitude talvez fizesse com que o marido fosse expulso da corporação, ou preso e não teriam de onde tirar seu sustento.

E então Maria se arrependeu. Lembrou que não possuía instrução ou recursos, pois após se casar, passou a se dedicar a vida do lar integralmente e achou que se ele estivesse disposto a mudar, que isso não seria mais um problema. Maria não havia concluído o primeiro grau.

No dia seguinte, tendo visivelmente ferido o rosto de Maria, Thiago se desculpou por seu erro e jurou que não faria novamente. Não se passaram dois meses e Thiago a machucou ainda mais. E uma terceira, uma quarta… dezenove vezes.

Maria, não tinha ninguém por ela no rio, odiava sua família no maranhão, não tinha mais uma boa aparência ou uma profissão. Já não se sentia disposta. Estava mentalmente cansada e nitidamente transtornada mentalmente. Já não se alimentava direito e vivia praticamente a base de cigarro e café, vícios adquiridos com os vizinhos.

Com o passar do tempo, Maria sofria castigos cada vez mais severos e acabou sabendo que seu marido havia engravidado uma outra mulher, do mesmo bairro. Mesmo assim, Maria aguentava calada e utilizava todos os recursos disponíveis para cuidar de sua filha, para que ela pudesse ter um futuro diferente. Sara agora já completava seis anos.

No dia primeiro de março de 2015, Maria levou mais uma surra, a pior de todas. Num acesso de fúria e álcool, Thiago tentou matá-la. Bateu em sua cabeça, no seu rosto, torceu seu braço até que ela não aguentasse mais de dor e por fim tentou sufocá-la com um “mata-leão”, até que o grito de Sara fez Thiago cair em si: – Por favor, não mata a minha mãe!

Como que desperto de seu transe, Thiago soltou Maria, que caiu no chão desacordada. Ele vai na direção de Sara, que treme e chora enquanto alterna o olhar entre a sua mãe, e a sombra projetada pelas pernas de seu pai pois Sara não tem coragem de encará-lo nos olhos.

Ele se aproxima, empurra a menina para o lado, pega a chave da moto e sai de casa.

Sara cai de joelhos junto a mãe, chorando, enquanto Maria tenta se recuperar.

Tendo ouvido a gritaria, os vizinhos prestam o socorro e a levam para o hospital, enquanto uma vizinha acolhe Sara em sua casa, juntamente com seus 4 filhos.

Maria passa a noite no hospital, em observação, com traumatismo craniano.

No dia seguinte, tomada por um misto de medo e coragem, pensando em si e temendo pelo que sua filha poderia vir a sofrer, munida mais uma vez de todos os seus exames médicos, e se encaminha de madrugada para a delegacia mais próxima com vários papeis na mão, presos por um clipe…